Não é preciso instalar um painel solar ou uma turbina eólica em um imóvel para ter acesso à energia limpa. Já existem startups que vendem créditos da produção de usinas de matriz sustentável —e esse mercado está em expansão.

As empresas encontram os fornecedores —que podem ser desde parques solares até alguém que tenha o sistema em casa e produza um excedente— e fazem a conexão com os usuários. Esses geradores de energia jogam a sua produção na rede da distribuidora local, e o cliente compra parte do que é produzido, com base na sua média de consumo mensal. O usuário, então, informa a concessionária, que dá o desconto desse valor na conta de luz.

O consumidor paga a startup pelos créditos, e a distribuidora poderá cobrar do usuário uma tarifa mínima e impostos. Segundo Victor Soares, 27, diretor-executivo da Metha Energia, a transação confere uma economia de 15% ao consumidor.

No mercado desde 2017, a startup tem crescido entre 200% e 300% ao ano. “Até agora, em 2021, crescemos quatro vezes mais do que o mesmo período do ano passado”, afirma Soares.

A empresa não cobra nenhuma taxa do consumidor. Ela recebe parte do valor de cada crédito de energia produzido pelas usinas.

Hoje, a Metha já tem 52 mil clientes em mais de 300 cidades mineiras. O objetivo de Soares é terminar o ano com pelo menos 80 mil usuários e expandir a atuação para as regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Criada em 2016, a Sun Mobi faz a ligação de duas fazendas de energia solar com cerca de cem clientes, em 27 municípios paulistas da área de concessão da CPFL Piratininga, entre eles Itu, Santos, Sorocaba e Jundiaí.

A empresa também cede um aparelho ao consumidor com o qual ele pode acompanhar em tempo real o seu consumo de energia e, assim, entender como pode economizar mais. Mesmo sem mudança de hábitos, é possível conseguir um desconto de 10% na conta, afirma Alexandre Bueno, 47, fundador da Sun Mobi.

Ao passar a usar os serviços da empresa no ano passado, Diogo Noronha, 29, sócio da padaria Alvorada, em Praia Grande (litoral de São Paulo), reduziu o gasto com energia de R$ 13,5 mil para R$ 11,3 mil ao mês.

Ele afirma que o principal motivo para contratar o serviço foi a necessidade de reduzir os custos, mas diz que o aspecto ambiental também foi levado em consideração.

A startup Lemon Energia, que atua em Brasília e nos estados de Pernambuco e Minas Gerais, começou as operações em 2019. Desde então, tem tido um crescimento de 300% ao ano. A companhia faz a conexão dos consumidores com fornecedores de energia solar. O seu público-alvo são micro e pequenas empresas com contas de luz que variam entre R$ 2.000 e R$ 4.000.

Segundo Rafael Vignoli, 32, fundador da Lemon, o serviço permite aos empresários uma economia de uma a duas contas de energia por ano.

A companhia conta com mil clientes, mas Vignoli espera chegar aos 4.000 até o final do ano, com ampliação da atuação para dez estados. “Já temos 7.000 cadastrados na fila de espera”, diz.

Lançada em fevereiro deste ano e com atuação em Minas Gerais, a Sou Vagalume faz uma ponte entre consumidores finais e fornecedores de energia solar.

Josiane Palomino, 37, diretora-executiva da Sou Vagalume, afirma que, nas residências, o desconto na conta de luz chega a 15%. Em condomínios e empresas, a economia é de 14% a 20% e, em propriedades rurais, de 10% a 14%.

Em uma simulação realizada no início de julho, um usuário residencial com gasto mensal em torno de R$ 200 conseguiria um desconto anual de R$ 238. Já uma empresa com conta de R$ 400 por mês poderia economizar entre R$ 545 e R$ 778 por ano, a depender do plano escolhido.


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Apesar do interesse crescente dos consumidores, esse tipo de serviço ainda está disponível em poucas cidades do país. Em São Paulo, por exemplo, ainda não é possível aderir ao sistema.

Isso ocorre em razão de uma dificuldade técnica, já que a usina precisa estar na mesma área de distribuição. Não é possível, por exemplo, fazer a ligação entre um parque eólico no Rio Grande do Norte e um consumidor na capital paulista, porque as concessionárias de energia são diferentes e, assim, não seria possível receber o desconto na conta.

Na Grande São Paulo, o obstáculo é encontrar terrenos com valor acessível para a instalação de usinas.

Soares, da Metha, estuda alternativas junto a parceiros, como aproveitar telhados de galpões para colocar painéis solares ou usar modelos flutuantes em represas.

Outra empresa que quer atuar em São Paulo é a Sun Mobi. “ O terreno é caro, a irradiação solar não é tão boa e a tarifa da Enel ainda é eficiente, mas estamos trabalhando para daqui a dois anos chegar à capital”, diz Bueno.



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