O mercado de trabalho está em constante mudança e evolução. Ele é formado por organizações que, por sua vez, são compostas por pessoas. Sendo assim, à medida que uma sociedade vai se transformando, essa mutação reflete diretamente na economia e dentro das companhias. É um ecossistema que se retroalimenta.

As novas gerações que chegam ao mercado têm outras aspirações do que as de outrora. Isso é perceptível e um desafio para os novos gestores. Diante desse cenário, tem crescido dentro das organizações um movimento de criação de propósito das empresas. De acordo com Hugo Bethlem, presidente do Instituto Capitalismo Consciente e chefe de propósito de uma risktech, “o propósito é a razão de existir de uma empresa, é a essência daquilo que a organização faz”.

Já do lado pessoal, o propósito é aquilo que nos motiva a acordar todas as manhãs para fazer o que fazemos. Assim, quem tem propósito não vai ao trabalho porque precisa ganhar dinheiro, mas porque acredita que o que faz pode fazer a diferença na sociedade, ou por simplesmente crer que ele é um meio para se atingir algo, por exemplo.

O propósito, portanto, é o que une colaboradores e gestores em prol de um objetivo em comum, é o atributo que alinha as pessoas de uma organização à visão, missão e valores da empresa. Esse conceito vai além do olhar apenas para os colaboradores, pois se aplica a todos os stakeholders de uma companhia: fornecedores, clientes, comunidade, acionistas e investidores. Mas aqui vamos manter sob o prisma do desenvolvimento humano das instituições.

Segundo pesquisa realizada em agosto do ano passado pela consultoria McKinsey, 70% dentre 1.021 entrevistados definem seu propósito pessoal por meio do trabalho. Já numa enquete realizada pelo Estadão com usuários do Linkedin sobre emprego, bem-estar e felicidade, “encontrar o propósito” foi a resposta mais votada por 819 pessoas. Para elas, o propósito seria um dos aspectos fundamentais para ser feliz no trabalho.

Na prática, o que vemos são os gestores procurando em seus colaboradores cada vez menos competências puramente técnicas. O foco é, principalmente, no comportamento, ao caráter e ao alinhamento entre profissionais e os valores e o propósito da organização. Um estudo da divisão da América Latina da consultoria de recrutamento internacional PageGroup, o Habilidades 360, mostra que os executivos brasileiros são os mais preocupados com as soft skills. De acordo com o documento, 68,7% dos líderes brasileiros dão mais relevância à falta de habilidades sociais para tomar a decisão em um desligamento.

Está aí um ponto de atenção que a gestão focada no propósito propõe: contratar por comportamento e não pelas habilidades técnicas. Empresas que pensam assim e agem assim – porque dizer que faz é muito diferente de aplicar na prática – são mais competitivas.

Organizações movidas por um propósito maior – como trazer significado e impacto positivo no mundo – têm retorno financeiro de até 5,5 vezes a média das empresas que têm ações na B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), de acordo com uma pesquisa feita pela Humanizadas, startup especializada no diagnóstico da qualidade das relações entre organizações e stakeholders. O que confirma as teorias da Economia do Propósito, de Aaron Hurst, consultor americano, que desde 2014 propõe que o tema seja estudado como uma ciência.

Outro dado que demonstra essa importância é a de retenção de talentos. Conforme pesquisa da Harvard Business Review, empregados de organizações com propósito demonstram ter o dobro de satisfação no trabalho e são três vezes mais propensos a permanecer no local.

Uma vantagem adicional recente para empresas com propósito está associada com a nova geração de consumidores. Os millennials (pessoas nascidas de 1995 a 2010) são consumidores socialmente conscientes e se identificam com empresas que tratam colaboradores de forma justa e fazem contribuições para a melhoria da sociedade. Um estudo feito pelo Grupo Cone Communications aponta que quase 89% dos millennials querem marcas com grande significado.

Por fim, antes de encerrar, há que se fazer uma ressalva:

A busca pelo propósito precisa ser verdadeira e não pode ser confundida com causa social.

Ser o que inspira é quando temos a clareza do porquê uma empresa existe, fazendo disso um ato de inspiração para funcionários, clientes, fornecedores, comunidades e todas as pessoas envolvidas em seu ecossistema.

Então foco no propósito. Cada vez mais, marcas sem significados e transformações em nossas vidas não serão toleradas. O bem comum e a empatia vão se tornar a regra de negócios em muito pouco tempo e os profissionais precisam estar adaptados a esse universo.

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Flavio Generoso Valiati, CEO da Vamos Subir e líder do segmento de Educação da Zoom no Brasil.



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