Acabar com o respeito entre as pessoas e a redução de nossa capacidade analítica são alguns dos contrapontos sobre o mundo digital que estão no livro “No Enxame”.

Byung Chul-Han, professor e filósofo sul-coreano, é um dos atuais nomes mundiais que tratam da contemporaneidade e suas consequências para os indivíduos. 

No livro “No Enxame: perspectivas do digital”, ele nos mostra como a comunicação digital modifica o comportamento humano de maneira simbiótica.

A partir do momento que alteramos o modo de viver e ver com a web, esse modus operandi altera nossa percepção de mundo e como nos comunicamos, também, no mundo real.

Leia esse artigo até o final para descobrir e entender os contrapontos descritos por Han.

O digital retira o respeito entre as pessoas

Para obter o respeito é preciso existir um distanciamento.

A etimologia da palavra respeito, que vem do latim respectus significa olhar de novo, olhar novamente. Um olhar para trás que o respeito nos exige.  

Respeito, também, é ligado diretamente ao nome.

Enquanto o mundo digital esconde a pessoa por meio da tela, do computador, dos perfis falsos, o respeito se esvai junto com a não identificação do remetente.

Os jornais e revistas impressos, por exemplo, só publicam cartas na seção de “cartas ao leitor” quando a correspondência é identificada, quando existe um nome, um remetente.

No digital, opiniões se tornam públicas sem sabermos de quem se trata.

Ao separarmos a mensagem do mensageiro, o recado do remetente, perde-se o fio do respeito, o olhar para trás que a palavra respeito trata.

A medida que o respeito some, vão embora, junto, a responsabilidade, confiança e promessa.

A comunicação digital destrói a privacidade

A falta de distância, a eliminação da esfera privada, confundida e misturada com a pública, nos transforma em uma sociedade do escândalo.

Uma sociedade sem respeito, sem distanciamento, de uma autoexposição por carência interna e não por coação, do mundo das selfies, transforma o nosso olhar. Não se vê mais o outro.

As selfies nos recortam do mundo.

Ao tirarmos fotos nas quais borramos ou retiramos os cenários, apagamos o fundo e apresentamos o nosso melhor ângulo, deixamos de ver os cenários, as irritações do sistema, os outros.

Aumentamos exponencialmente o comportamento egóico narcisista.

A comunicação digital é uma mídia de afetos

O tempo da máquina de escrever e dos manuscritos, em papéis e cartas, nos dava temporalidade para viver o sentimento, digeri-lo, antes de enviar tal comunicado.

Hoje, com mensagens instantâneas, a comunicação é afetada pelos sentimentos exacerbados.  

Basta um clique e postamos sem pensar, respondemos com os sentimentos, de maneira impulsiva.  

No meio digital, os sentimentos são exacerbados

A comunicação de via dupla oferecida pelo digital transformou o fluxo da comunicação de um para muitos.

Antes, os meios de comunicação de massa como TV, rádio e revistas, detinham o poder da informação, mas também, resultavam em produção com qualidade e rigor.

O digital oferece o fluxo de informação de muitos para muitos.

As pessoas produzem e consomem informação aumentando a quantidade de dados e retirando o mediador, seja ele um jornalista ou uma organização.

Essa mudança não mantém a qualidade e a confiabilidade das bases. Pelo contrário, reduz.

O mediador, antes visto com status e detentor do poder da informação, passou a ser visto como controle, falta de eficiência e celeridade.

Sem o mediador, cultura e linguagem se achatam.

O excesso de informação não qualificada atrapalha o conhecimento

Para surgir o saber, pressupõe-se uma experiência.

O conhecimento se apresenta como uma descoberta, um esclarecer, tornar-se claro. Desvela-se da escuridão, a luz.

O excesso de informação, pelo contrário, acumula, excede, reduz o entendimento.

A informação é aditiva.

Conhecimento, aprendizado e saber necessitam da exclusão. Retira-se o que é desnecessário, seleciona e refina.

Aprimora-se quando do todo, tornamo-nos seletivos. Assim constrói-se o saber.

Transparência X Confiança

A confiança e a credibilidade se perdem quando tudo precisa ser monitorado, apresentado.

O digital que exige a total transparência oferece o oposto da confiança.

Temos o controle, monitoramento, métricas e ainda mais números e dados quantitativos.

Antes, éramos controlados pelo Big Brother, hoje, soma-se ao o Big Data.

A verdade é implícita. A informação, explícita

A transparência, também, não apresenta a verdade. 

Para surgir a verdade, ela precisa ser desvelada. Assim como o saber, é exclusiva e seletiva.

Logo, muita informação, muitos dados, não apresentam a verdade que surge, pelo conhecimento, pelo saber e pela experiência.

A comunicação digital reduz o poder

Poder e informação também não combinam.

O primeiro precisa dos segredos ocultos, de uma interioridade, de uma segregação para se tornar hierárquico.

O poder é formado, também, pelo distanciamento e pela comunicação assimétrica. 

O excesso de informação retira nossa capacidade analítica

O psicólogo britânico David Lewis cunhou o conceito Síndrome da Fadiga da Informação (SFI), uma doença que ataca executivos e profissionais que não sabem lidar com a quantidade de dados e informações recebidas.

Essa síndrome causa estupor das capacidades analíticas, inquietude generalizada, além de outros sintomas causados pelo excesso de informação.

Homem com dúvidas

O definhamento do juízo e das tomadas de decisões

Para o pensamento existir é necessária a capacidade analítica, diferenciando o essencial do não essencial.

Quando nos tornamos uma sociedade do escândalo, sem respeito e sem remetente, rastreável e controlada pelo digital, com excesso de informação não qualificada, que achatam linguagem e cultura no contexto social, e deturpam a capacidade analítica, de tomada de decisões e faculdade dos juízos, no contexto pessoal, somos construídos pelo o que criamos.

O digital se tornou parte do ser humano, não apenas por mobiles, chips e braços robóticos, mas invadiu a cognição.

Ele modifica a maneira que somos, cognitiva e subjetivamente como indivíduos.  

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freela_julia

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