Capital da aviação e da tecnologia no Brasil, São José dos Campos se consolida como polo para empresas inovadoras, as startups.

O ecossistema de startups da cidade conta com mais de 50 empresas inovadoras, algumas delas já com sucesso nacional, de acordo com mapeamento feito pela ABStartups (Associação Brasileira de Startups).

Estão nesse grupo empresas como Guichê Virtual, QMágico, Quero Educação, Allgoo, SoluCX e mLabs.

Na avaliação da ABStartups, o que torna São José dos Campos atrativa é o ecossistema que se formou em torno das startups, e por causa delas. A associação lista seis “pilares” que sustentam esse ecossistema: cultura (eventos e imprensa), densidade e diversidade, capital (investidores), ambiente regulatório, talentos e acesso ao mercado.

A confluência dessas virtudes tem seu ápice no Parque Tecnológico São José dos Campos, espaço que nasceu em 2006 e que se tornou hub de tecnologia, inovação, conhecimento e criação de empresas inovadoras. É considerado um dos maiores complexos de inovação e empreendedorismo do Brasil.

O PqTec ocupa área de 188 mil metros quadrados, onde estão instaladas 152 empresas, cinco institutos de ciência e tecnologia e 10 institutos de ensino e pesquisa.

A missão do espaço é “promover ciência, tecnologia, inovação e o empreendedorismo, visando ao desenvolvimento competitivo e sustentável das empresas e instituições vinculadas”.

“O Parque Tecnológico, por meio do Nexus, tem um papel estratégico e tenho certeza que com a união desses grupos iremos ganhar força e sinergia para elevar o Parahyba Valley a outro patamar de reconhecimento e produção de tecnologias e negócios em escala global”, diz Alexandre Barros, especialista em inovação e ex-gestor de Empreendedorismo do Parque Tecnológico de São José dos Campos.

São José é o epicento do chamado ‘Parahyba Valley’, movimento que reúne as startups e empresas de base tecnológicas da região numa espécie de Vale do Silício brasileiro.

“É muito grande a importância de São José dos Campos para as ciências brasileiras. Temos no Vale do Paraíba todo esse centro para as ciências. Há pessoas ilustres do país que se formaram no ITA e tem muito orgulho disso. Tudo isso cria uma espécie de Vale do Silício, é o Vale do Conhecimento”, afirma o filósofo e cientista político Renato Janine Ribeiro, eleito em junho o novo presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

“Startup é negócio do presente. Se olhar os países que estão indo bem, existem ecossistemas robustos, e São José é valorizado nessa área. Temos que anexar e complementar”, diz o secretário de Inovação e Desenvolvimento Econômico da prefeitura de São José dos Campos, Alberto Alves Marques Filho.

Para “anexar e complementar”, a Prefeitura de São José inaugurou em dezembro de 2019 a ‘Startup São José’, espaço de apoio às empresas inovadoras que funciona no antigo prédio da Casa do Café, no Parque da Cidade, na região norte. O objetivo é atrair novos empreendedores e tornar a cidade em um grande núcleo de inovação.

A prefeitura investiu R$ 400 mil na reforma e no mobiliário do espaço, cuja meta é atender cerca de 20 startups, com 100 pessoas trabalhando.

Segundo o prefeito Felicio Ramuth (PSDB), a expansão do programa está prevista para o complexo da antiga Tecelagem Parahyba, também no Parque da Cidade. O local tem mais de 55 mil metros quadrados e algo em torno de 30 mil m² poderiam ser utilizados pelo município.

A meta é que o local abrigue atividades de economia criativa, especialmente startups apoiadas pelo programa municipal. Para tanto, a prefeitura previa inscrever os galpões em projetos de recuperação do FID (Fundo de Interesses Difusos), do governo estadual, para tentar recursos e começar as reformas sem ou com pouca contrapartida do município.

A ideia é trabalhar em parceria com o PqTec e apoiar empresas não tão robustas como àquelas incubadas no parque.

“Empresas que dependem de processo tecnológico mais apurado, que precisam de laboratórios, normalmente esse tipo de coisa faz mais sentido estar no PqTec. São cadeias mais longas. Aqui deverá ser mais rápida, de um a dois anos”, explica Marques Filho.

Na avaliação do secretário municipal, as áreas mais promissoras para o ‘Startup São José’ são audiovisual, biotecnologia, games e saúde, com um polo “diversificado e não menos desenvolvido tecnologicamente”.

Na avaliação de Felicio, a cidade vem escrevendo um “novo e mais promissor capítulo da sua história” ofertando espaço para empreendedorismo, nova economia criativa e ao conhecimento.

“Misturamos a velha indústria com o novo. A indústria dos tempos atuais e vai interagir com nosso parque tecnológico, propiciando geração de emprego e renda”, diz o mandatário.

“Outra meta é reter nossos talentos. Criamos um ambiente para que parte desses talentos fique aqui e empreenda. Mas também queremos atrair talentos de fora, numa cidade que tem todos os indicadores para quem quer empreender, além de qualidade de vida”, completa Felicio.

Um dos programas de São José se chama ‘City Lab’, que abre oportunidades para que empresas ofereçam soluções criativas à prefeitura, em áreas como mobilidade, saúde, educação, inteligência de gestão e segurança.

“Temos ambiente propício para que a startup e a empresa que tenha algo para oferecer ao poder público esteja perto. É mais fácil ainda encaminhar a solução criativa, e vamos caminhando para cada vez mais uma cidade inteligente”, diz Marques Filho.

Incubada no PqTec, a Nick, empresa com soluções digitais para o atendimento e gestão em saúde, aproveitou-se dessa abertura com o poder público e toca dois projetos inovadores em unidades de sáude da cidade, na UES 2 (Unidade de Especialidades em Saúde) e no Hospital de Clínicas Sul.

Para Flávia Quintanilha, uma das fundadoras e diretora executiva da Nick, o sucesso da empresa tem tudo a ver com o ambiente da cidade. “O ecossistema de São José é muito desenvolvido e apoia muito as empresas”, diz.

“O acesso não está isolado no PqTec e vem da gestão pública, que permite que as empresas e a prefeitura estejam abertas para receber mais tecnologia. Permite que empresas como nós, que queremos quebrar barreiras, tenham ambiente fértil para trabalhar. Isso desburocratiza o processo de inovação.”

Para o fundador da Quero Educação, Bernardo de Pádua, estar em São José faz toda a diferença, com um ambiente de universidades, institutos tecnológicos e empresas inovadoras.

“Esse ambiente, sem dúvida, favorece a cultura empreendedora e a criação de novas startups. É extremamente positivo e vantajoso para uma empresa nascente estar inserida nesse ecossistema.”

Fundador da mLabs, outra startup nascida em São José e com reconhecimento nacional, o publicitário e especialista em Marketing Digital e em Gestão da Inovação, Rafael Kiso, diz que a cidade contribui para a oportunidade de empreender, como ocorreu com seu próprio negócio.

“Entendemos que poderíamos ser uma startup de impacto social, ajudando os pequenos negócios”, diz Kiso sobre a mLabs, plataforma de gestão de redes sociais.

Mas também a crise provocada pela pandemia do coronavírus afetou as startups.

No PqTec, por exemplo, os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação caíram de R$ 67 milhões para R$ 53 milhões entre 2019 e 2020. Na mesma comparação, os aportes de investidores privados, um dos meios de financiamento mais importantes para as startups, reduziram de R$ 31 milhões para R$ 23 milhões. As subvenções e financiamentos do governo despencaram pela metade: R$ 14 milhões para R$ 7 milhões.

No entanto, há quem veja na crise a oportunidade certa para o investimento.

“Crise significa mudanças e essas mudanças favorecem os empreendedores. É o tempo certo para empreender”, diz o norte-americano Geoff Ralston, considerado um dos “gurus” de startups no mundo.

Sócio da aceleradora Y Combinator, que já impulsionou empresas do porte de Airbnb e Dropbox, Ralston esteve em São José em 2017 para conhecer a Quero Educação, startup que nasceu no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e é uma das mais bem-sucedidas da região.

“A crise sempre é uma espada de ponta dupla. A crise pode ser algo positivo porque ela cria oportunidades. Crise significa mudanças e essas mudanças favorecem os empreendedores. É o tempo certo para empreender. O lado negativo é que é mais difícil conseguir investimento”, prega o investidor.

Uma das ferramentas de enfrentamento da crise é a ousadia, que o PqTec usou para lançar neste ano o ‘Nexus Global’, programa para inserir e impulsionar seu ecossistema de tecnologia e inovação no mercado global.

O objetivo é consolidar o Parque como hub tecnológico mundial para novos negócios, desenvolvimento e cooperação, facilitando o posicionamento internacional das empresas e instituições vinculadas.

Para o coordenador de desenvolvimento de negócios internacionais do PqTec, Rodrigo Mendes, o processo de internacionalização amplia as oportunidades e torna as empresas mais eficientes.

“A empresa melhora seus processos para acessar o mercado global e ser capaz de competir com os principais players. Este esforço eleva a performance, trazendo mais resultados aos negócios.”

“Além de trabalhar para conectar o ecossistema da região com os principais ecossistemas internacionais, vamos também oferecer apoio para que as empresas de fora possam se instalar no Brasil, especialmente em São José dos Campos”, complementa Mendes.

Todo esse esforço tem o propósito de consolidar São José como celeiro das boas ideias que mudam o mundo, além de gerar inovação, emprego e renda e conhecimento.



Link original