Memed: A startup que resolveu o problema da ‘letra de médico’
Principal gargalo detectado pela startup foi a “incompreensão” com os profissionais da saúde, que não eram vistos como clientes anteriormente – Foto: Reprodução/ALERR

Em um mês, o número de drogarias que aceitam prescrições digitais da Memed passou de duas, na capital paulista, para mais de 40 mil em todo o território nacional. O rápido crescimento mostra o salto dado pela startup, que fornece um receituário médico digital – após ver sua demanda aumentar drasticamente com a pandemia.

A startup, no anualizado de 2020, reporta uma alta de 500 mil para cerca de 1,7 milhão de receitas mensais emitidas, número que já saltou para 3 milhões, segundo o levantamento mais recente.

Em grande parte, a empresa foi impulsionada pelo avanço da digitalização. O processo, é claro, não deixou o setor médico de fora.

“O caso, talvez mais relevante, foi por conta do coronavírus. Em março de 2020, em uma sexta-feira qualquer, recebemos uma ligação urgente da Prevent Senior. ‘Covid, lockdown, trabalho remoto, trabalho presencial. Vai parar tudo’ . O paciente já recebe [atualmente] uma receita [digital], mas eu preciso garantir de que ela será aceita pelas drogarias”, disse o médico, na linha.

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O relato é de David Cardoso, vice-presidente de engenharia da Memed, durante o AWS Startup Day Brasil, promovido pela AWS, subsidiária da Amazon (AMZO34). O evento ressaltou os serviços e ferramentas da companhia, e também demonstrou alguns cases de sucesso que contaram com apoio das ferramentas.

Ressaltando a necessidade iminente de lidar com a popular e odiada “letra de médico“, a startup passou alguns anos em contato com o setor para poder impulsionar seu produto.

Na prática, trata-se de um software de receituário médico digital que é integrado com as drogarias – com a utilização de um token – e visa sanar gargalos, como as dificuldades dos profissionais do setor de memorizar todos os medicamentos ou interações.

Por isso, todas as receitas são armazenadas, com uma funcionalidade que prevê sugestões baseadas em prescrições passadas. Em uma analogia, funciona da mesma forma como uma pesquisa do Google que leva em conta as buscas passadas e o seu histórico.

Dados levantados demonstram um conhecimento médico que dobra em questão de semanas, dificuldade uma "atualização" frequente por parte dos profissionais - Foto: Reprodução AWS Startup Day Brasil
Dados levantados demonstram um conhecimento médico que dobra em questão de semanas, dificuldade uma “atualização” frequente por parte dos profissionais – Foto: Reprodução AWS Startup Day Brasil

As interações medicamentosas, que são milhares, disparam um alerta quando o médico acaba inserindo dois fármacos que não vão bem juntos. A product manager da Memed, Acsa Cardoso, destaca que isso só foi possível pois a startup cumpriu a função de compreender o médico enquanto um cliente, o que não estava sendo feito até então.

“A cada cliente a gente entendia novas dores e novas necessidades. Cheguei a ser confundida como funcionária da Prevent Senior”, conta.

Startup visa se adequar à LGPD

A empresa fez um anúncio recente de um projeto interno que prevê adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A preocupação também foi destacada no evento da AWS, já que o objeto de abordagem é delicado.

O projeto de adequação foi feito com apoio da consultoria europeia Beijaflore, especializada em segurança e privacidade de dados. Mas atualmente a empresa já conta com canais que levam em conta a legislação recente, já que o paciente acaba sendo uma das “pontas” afetadas pelo produto.

Dentre os parceiros da Startup, figuram:

  • iClinic
  • Unimed
  • Prevent Senior
  • Totvs
  • Shosp

“Uma das coisas mais importantes que aprendemos foi que o nosso público está em um momento crítico, ninguém vai ao médico pois está bem. Tudo tem que ser da melhor forma possível”, conta David.

A empresa teve que lidar não só com os médicos, mas incluir as drogarias e os pacientes dentro das análises – que incluíram mais de 50 entrevistas formais com médicos.

Feedback como Norte

No DNA da startup, assim como na Amazon, a “obsessão pelo cliente” reina, e o grande obstáculo foi entender o motivo pelo qual a “letra de médico” era sinônimo de palavras incompreensíveis.

Ao estudar o setor, a startup constatou que pouco mais de 50% dos médicos trabalha em mais de três locais diferentes, o que possui correlação com os estereótipos relacionados à profissão.

“Aprendemos que, na verdade, o médico tem muitas dificuldades atualmente, mas não possui ninguém olhando para ele enquanto profissional. Ele tem de lidar com sistemas e burocracias. Além disso, possui um volume de trabalho alto, com plantões recorrentes e afins”, ressalta Acsa.

Foto: Reprodução AWS Startup Day Brasil
Foto: Reprodução AWS Startup Day Brasil

product manager ligou os pontos com a expectativa alta em cima dos profissionais, além do fato de que, na atualidade, o meio digital acaba sendo um rival do consultório, considerando a quantidade de pacientes que acabam cedendo à pesquisas na internet ao sentirem algum sintoma.

Com todo esse somatório, a esmagadora maioria dos consultórios acabou tendo recorrência de receituários que são pouco compreensíveis, além de serem feitos em consultas rápidas.

Esse encurtamento do encontro com os pacientes, da mesma forma, foi visto como uma ocasião gerada pela somatória do volume de trabalho, expectativa com ganhos financeiros altos e pouca ou nenhuma margem de erro.

“O senso comum é de que o médico é um ser inquestionável, com um status social muito grande, que não erra; com uma carreira digna e bem-sucedida. Fomos dialogar e tentar entender o que tem de realidade nesse senso comum”, analisa Acsa.

Impulsão com a pandemia

Somente em 2020, a startup apresentou a emissão de 13 milhões de receitas, mais do que dobrando o número do ano anterior. “Com a questão do lockdown, a quantidade de médicos que começou a utilizar o fluxo de ponta a ponta aumentou muito. Passou de 120 para 7 mil o número de chamados [de atendimento] com a pandemia”, analisa David.



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